Saturnino Braga


ARTIGO: A NOVA DEMOCRACIA NO CONGRESSO DO CENTRO CELSO FURTADO
ARTIGO: O ÓDIO NA POLÍTICA
ARTIGO: ENERGIA E CRIATIVIDADE
ARTIGO: SOBREVIVÊNCIA
ARTIGO: A IMPORTÂNCIA DA DIMENSÃO POLÍTICA NO DESENVOLVIMENTO
ARTIGO: O AMOR CIDADÃO
ARTIGO: NA POLÍTICA: BONS VENTOS PARA OS DUZENTOS ANOS
ARTIGO: JORNADA DE SEIS HORAS
ARTIGO: O MISTÉRIO DA LITERATURA
ARTIGO: UM NOVO MUNDO
ARTIGO: O DESENVOLVIMENTO SOCIAL
ENTREVISTA: NAÇÃO BRASILEIRA QUER UM ESTADO QUE SEJA PRESENTE E ATUANTE
ENTREVISTA: ROBERTO SATURNINO BRAGA, DEPOIS DA POLÍTICA, FINALMENTE NA IDADE DA RAZÃO
CONTO: SABER
CONTO: OS PRIMOS DE SÃO CRISTÓVÃO
CONTO: A BRIGA
CONTO: O TREZE
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CONTO: O PORTEIRO NEGRO
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CONTO: O FOTÓGRAFO
CONTO: MARCHAS ANTIGAS
CONTO: AMERICO DA PRAIA DO PINTO
CONTO: O SORRISO DE JORGINA
CONTO: AQUELE SENTIMENTO
CONTO: A MULHER MÔNICA
CONTO: DOIS BEIJOS
CONTO: MINDINHA
CONTO: IMELDA
CONTO: A DECISÃO
LIVROS
ARTIGO: SOBREVIVÊNCIA

 

Ao longo dos cinquenta mil anos de existência, foram muitas as ameaças: fomes, pestes, guerras, todos os males da caixa de Pandora, secas, dilúvios, a era glacial que acabou com tantas espécies, e a Humanidade superou-as todas, avançou distâncias imensas, atravessou mares e ocupou todos os continentes, confirmando sua força de sobrevivência que já havia demonstrado, deixando para trás os primos filogenéticos extintos, Neandertais e outros que tais. Aprendeu a plantar, construiu cidades e, a partir delas, a Civilização e a História; foi ampliando sua população e resistindo a novas dizimações, a peste negra, que matou um terço da população da Europa no século XIV, a explosão do Krakatoa, ou a explosão do mundo para todo o sudeste da Ásia há uns cento e cinquenta anos, foi crescendo na sua ciência, que acabou gerando sua última grande ameaça, faz uns cinquenta anos, com o Armagedon nuclear, experimentado em Hiroshima e Nagasaki e mostrado pelo Dr. Strangelove e outros filmes dos anos sessenta. A Humanidade venceu, ultrapassou os seis bilhões jamais imaginados, chegou à lua.

E agora vai sucumbir a esta avalanche poluente que ela mesma produz e que é sua nova ameaça? Não; claro que não vai. Quem responde é o próprio bom senso que resta à Humanidade, seu dom de criação. Quem viveu os anos da guerra fria do século passado se lembra bem da certeza que se tinha da guerra quente, quentíssima, pairando a dúvida somente sobre as suas consequências, se extinguia tudo pela radiação ou não. E a guerra não aconteceu; chegou à beira do abismo, naquela crise dos mísseis de Cuba, quando as horas chegaram a se contar para a grande eclosão, e o bom senso prevaleceu, os russos recuaram na hora agá e tudo retornou ao que era antes, a ameaça latente que, dali para a frente, se foi esfumaçando.

Então existe este bom senso de autopreservação, instinto inscrito no DNA, que não vai deixar que o homem, para seu conforto e deleite, envenene a terra, o mar e o ar, até se envenenar a si próprio; que continue sendo o mesmo lobo do homem até ser o lobo de si próprio.

Entretanto, fazer chegar a percepção do perigo a seis bilhões de pessoas demora décadas; mas acaba chegando. Quem tem experiência de campanhas políticas conhece bem a lentidão do processo de informação e de convencimento, de formação da opinião. Frequentemente a opinião final, decisiva, se forma nos últimos dias, quando a atenção geral é demandada pela inevitável proximidade do pleito. Como esperar que seis bilhões pelo mundo a fora se convençam do perigo, só porque alguns mais conscientes começam a advertir sobre uma calamidade que virá daqui a décadas?

É preciso que cheguem os sinais da natureza, com a sua força espantosa e aterradora, para que os povos todos da terra decidam deter o processo. A decisão tem que vir deles, os povos todos, porque os governos têm seus interesses próprios, mas nos momentos críticos são arrastados pela vontade política dos povos, manifestada democraticamente, no voto, ou iradamente, nas ruas. Os poderosos precisam dessa vontade, procuram moldá-la segundo seus interesses, mas diante do grito clamoroso, sabem recuar.

Assim, outros sinais, igualmente assustadores, devem vir da própria Humanidade, dessas reações populares de natureza política que marcam a História com a sua força tempestuosa. As duas correntes de manifestações, a da natureza e a do povo, convergem para a exigência da mudança do comportamento e da mentalidade que caracterizam o presente destrutivo: o insustentável consumismo do modelo capitalista.

O que é o desenvolvimento sustentável? É a economia do consumo essencial, do consumo razoável, do consumo responsável, da redução do consumo perdulário de energia, que está no fundamento do padrão de vida insustentável do consumismo.

É preciso que venha o socialismo? Pessoalmente, acho que sim, já que o consumo perdulário, criado artificialmente, e o modelo capitalista de produção são faces da mesma moeda, um não vive sem o outro. E o socialismo virá assim, não de uma vez, tomando pelas armas o Palácio de Inverno do Czar, como foi na Rússia em 1917, mas por avanços inelutáveis, que vão caracterizando o controle político crescente da sociedade sobre a economia em substituição ao comando do Capital: o controle dos bancos, a extinção dos paraísos fiscais, a intervenção do Estado no planejamento e nos investimentos estratégicos, a começar pelo setor energético, a pressão política direta do povo nas decisões econômicas ocupando as wall streets do mundo, a diminuição da influência da grande mídia e a mobilização popular avassaladora feita pelas redes eletrônicas, um processo que começa a tomar forma e substância e só vai se alargar nas próximas décadas, paralelamente à repetição dos sinais naturais cada vez mais impactantes.

Bem, não é só essa a minha crença: ela vai ainda até a importância do papel do Brasil nesse processo: o Brasil que está entre os dez maiores PIBs do mundo, assim como entre as dez maiores populações e as dez maiores superfícies territoriais, o Brasil que está entre as dez maiores democracias do planeta, que tem a liderança do continente mais progressista do mundo atual, o Brasil que tem uma tradição de negociação competente e pacífica entre as nações do globo; o Brasil potência da paz que possui a maior reserva biológica do mundo, terá certamente uma voz ressonante em todo esse processo de recondução da Humanidade ao bom senso preservacionista e ao modelo humanístico e sustentável de desenvolvimento econômico.

Hoje é um sentimento que tenho; amanhã será uma realidade; quem dera poder vê-la.



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