Saturnino Braga


ARTIGO: A NOVA DEMOCRACIA NO CONGRESSO DO CENTRO CELSO FURTADO
ARTIGO: O ÓDIO NA POLÍTICA
ARTIGO: ENERGIA E CRIATIVIDADE
ARTIGO: SOBREVIVÊNCIA
ARTIGO: A IMPORTÂNCIA DA DIMENSÃO POLÍTICA NO DESENVOLVIMENTO
ARTIGO: O AMOR CIDADÃO
ARTIGO: NA POLÍTICA: BONS VENTOS PARA OS DUZENTOS ANOS
ARTIGO: JORNADA DE SEIS HORAS
ARTIGO: O MISTÉRIO DA LITERATURA
ARTIGO: UM NOVO MUNDO
ARTIGO: O DESENVOLVIMENTO SOCIAL
ENTREVISTA: NAÇÃO BRASILEIRA QUER UM ESTADO QUE SEJA PRESENTE E ATUANTE
ENTREVISTA: ROBERTO SATURNINO BRAGA, DEPOIS DA POLÍTICA, FINALMENTE NA IDADE DA RAZÃO
CONTO: SABER
CONTO: OS PRIMOS DE SÃO CRISTÓVÃO
CONTO: A BRIGA
CONTO: O TREZE
CONTO: O DOCEIRO DA CUPERTINO
CONTO: O PORTEIRO NEGRO
CONTO: MARTIN
CONTO: O FOTÓGRAFO
CONTO: MARCHAS ANTIGAS
CONTO: AMERICO DA PRAIA DO PINTO
CONTO: O SORRISO DE JORGINA
CONTO: AQUELE SENTIMENTO
CONTO: A MULHER MÔNICA
CONTO: DOIS BEIJOS
CONTO: MINDINHA
CONTO: IMELDA
CONTO: A DECISÃO
LIVROS
ARTIGO: O AMOR CIDADÃO

 

Acho que não requer definição, mas se me perguntam começo dizendo que o amor cidadão tem o carinho de qualquer amor; não tem entretanto o erotismo, ou tem-no sublimado em dedicação e responsabilidade. Isso mesmo, mais propriamente, o sentimento de responsabilidade, este dever de cuidado e devoção em relação ao objeto, a cidade, a nação, o povo. Difere de outros amores na extensão, na tranquilidade e na duração. Não é evanescente, não tem a velocidade da cultura digital, é uma responsabilidade estável que se faz presente em toda a vida do cidadão. Não é obsessivo nem inquieto, mas abrange o empenho de convocação de toda a coletividade coparticipante para o seu exercício. É amor que tem dimensão afetiva, forte e ampla, e também moral, própria do ser humano amadurecido, como o amor de compartilhamento dos casamentos duradouros, capaz de gerar um prazer permanente na dedicação e no carinho cultivado, uma felicidade típica desta união de seres.

É amor ao espaço físico, ao solo natural e às construções e criações humanas de todos os tempos: amor à terra e aos montes, ao mar e às nuvens, ao ar e ao clima; e amor especial ao povo, aos monumentos da sua história, às edificações do seu trabalho, e ao pensamento, à filosofia e à música do povo. É amor de identificação com todo esse conjunto, que compreende o patrimônio natural, os sentimentos e as realizações de toda a gente da cidade; é amor ao esforço de aperfeiçoamento dessas realizações pelo diálogo.

A cidade é a grande, é a maior realização da Humanidade. Os grupos errantes, nômades da multimilenar pré-história não dispunham do tempo de meditação que produz o pensamento, a arte, a ciência e a sabedoria. A civilização é fruto da cidade, do convívio na estabilidade, do espaço e do tempo propícios para a troca dos inventos e das cogitações da meditação.

O amor cidadão é político; nasceu na polis há dois mil e quinhentos anos, no bojo dos grandes encontros públicos, das gigantescas assembleias que discutiam e decidiam na praça aberta o destino comum dos gregos. Nasceu desta obrigação de cidadania, de participar e se envolver emocionalmente, humanisticamente, politicamente, na vida coletiva, na vida de todos, propiciando e promovendo a aproximação da irmanação, da fraternidade. O Estado-Nação é um conjunto de cidades ligadas no solo e no destino comuns por um sentimento, um meio de expressão e uma responsabilidade conjunta de atenção e cuidado derivada deste amor cidadão.

O amor cidadão se qualifica então pela natureza política e pelo dever de participação. É um amor essencialmente democrático, que busca o conhecimento dos outros cidadãos, senão a completa irmanação ao menos a compreensão dos seus sentimentos e projetos, uma compreensão que busca a aproximação da fraternidade. Eu avanço mais e digo que no fundo é um afeto de cunho socialista, na medida em que se expande na exigência de igualdade substantiva nas manifestações e nos direitos, como também nas responsabilidades, e ainda no reclamo de aprofundamento do conteúdo de democracia na vida da cidade como um todo, e na restauração deste esquecido princípio da fraternidade.

A terceira promessa da Revolução Francesa realmente desapareceu das lides políticas: a democracia findou se contentando com a liberdade e a igualdade. Como se não bastassem os preconceitos étnicos e as diferenças culturais, a competição demoníaca do mercado arrasou com o pouco que restava da fraternidade no discurso político. Esse pouco vinha do tratamento de camaradas e companheiros dos comunistas e socialistas, que procuravam chamar a atenção para a importância do espírito de fraternidade entre os trabalhadores.

O amor cidadão abrange ainda o conjunto das instituições políticas de cada povo, é por conseguinte também um amor ao Estado, democrático evidentemente, o Estado de Direito, reconhecido como representação política legítima de toda a sociedade, situado num nível de eticidade hegeliano, mais elevado por decisão e delegação da própria sociedade civil, cometido de funções organizativas fundadas no ideal de justiça como equidade e nos princípios essenciais da revolução democrática: a liberdade, a igualdade. Não se coaduna, por isso, o amor cidadão, nem com a fantasia destrutiva do anarquismo nem com o radicalismo individualista e antiestatal do neoliberalismo.

O amor cidadão se preocupa com a desmoralização que generalizadamente se abate sobre as instituições democráticas no mundo que diz praticá-las, e, afligido por esta constatação, procura caminhos de restauração do prestígio dessas instituições e da sua própria fidelidade plena ao regime democrático.

A democracia clássica, liberal, representativa, com cerca de duzentos anos de experiências pelo mundo ocidental, exibe hoje claros sintomas de falência: os povos que há muito a praticam estão a repudiar a clássica delegação completa que caracteriza a representação parlamentar e executiva. O processo de mercantilização geral da vida em sociedade atingiu em cheio essa representação política e as populações representadas, indignadas pela força dos lobies e pela corrupção generalizada, não mais reconhecem a legitimidade dos seus delegados para decidir sobre os seus destinos. Mas não existe alternativa para a democracia, o governo dos governados, desde que o ser humano conquistou sua emancipação. Ditadura nunca mais, nem a mais esclarecida, nem a mais branda, nem a mais bem intencionada em termos de justiça: a democracia precisa sobreviver; desacreditada mas insubstituível. E a democracia, para sobreviver, tem que buscar vias de participação mais direta dessas populações nas decisões políticas.

A busca dos meios e caminhos e a institucionalização dessa participação constituem o desafio e a missão principal da política nas próximas décadas. Obviamente essa participação direta não ocorrerá no dia a dia das pessoas ocupadas com suas vidas próprias, com seus amores preciosos, mas se manifestará sobre as decisões mais importantes, mobilizadoras e polêmicas da vida política da cidade ou da nação. Será necessária, também, nos momentos de julgamento dos representantes, que seguirão sendo escolhidos no processo eleitoral.

Os que creem na marcha e na sabedoria da Humanidade acreditam que essa nova dimensão da democracia estará em vigência por volta da metade deste século que já vai na sua segunda década. Coincidência ou não, a própria Humanidade criou os dispositivos tecnológicos que propiciam a implementação da ampla participação popular na política através de plebiscitos e consultas frequentes.

O desenvolvimento tecnológico é condição necessária mas não suficiente para a realização deste melhoramento essencial da democracia que marcará uma nova etapa do processo político mundial. A outra condição complementar, igualmente necessária, é o cultivo e a disseminação do amor cidadão, que compreende o amor aos concidadãos, a fraternidade esquecida pelo liberalismo. Há, de fato, uma causação circular nesse processo: o amor cidadão é necessário, é causa do avanço participativo de democracia, e é também efeito dele, é um sentimento coletivo que cresce com o exercício e a comunhão da participação.

Tivemos na nossa cidade do Rio de Janeiro, nos meados dos anos oitenta, uma experiência pioneira e altamente demonstrativa de política participativa, apesar de não ser geral essa participação, mas muito limitada, realizada através de representações das associações de moradores e organizações da sociedade civil. Os resultados, todavia, foram extremamente animadores e fortemente reveladores dessa circularidade referida, demonstrando o quanto se eleva o sentimento de amor cidadão entre os que praticam a participação, os quais, por sua vez, acorrem à participação em razão do amor cidadão que já sentiam.
Entra em jogo, então, mais uma vez, a questão da Educação.

É preciso que a Educação abra um espaço para os ensinamentos da moral humanística que se construiu no iluminismo, desenvolveu-se no apreço à pessoa humana e aos direitos fundamentais do homem, como uma forma de amor à Humanidade, e hoje é ameaçada pelo cinismo mercantil. Esta moral humanística compreende a responsabilidade em relação ao destino comum, ao espaço comum do nosso planeta e o cultivo da solidariedade, senão da fraternidade. Que seja, esta Educação, um pouco menos individualista, como preparação para a eficácia operacional no mercado, e mais socializante, mostrando a importância do interesse de cada um pela coletividade e pela humanização da vida dos concidadãos. Este interesse, que abrange a motivação e a participação política, é fundamental para o desenvolvimento social e cultural da cidade e da nação, para a preservação do meio ambiente saudável, e até mesmo o progresso econômico, muito mais amplo, duradouro e sustentável quando há coesão política e empenho social de todos. É entretanto importante também, e muito, para essa outra face da felicidade social que é convivência harmônica e o engrandecimento humanístico da sociedade como um todo. A avidez algo doentia pelos resultados do PIB tem relegado a um plano de esquecimento, ou lembrança superficial, essa face decisiva da saúde social das cidades e nações, o amor cidadão.

Perguntar pelos meios de inserir essa dimensão na Educação de um povo é uma questão fundamental, cuja resposta precisa ser debatida também com a sociedade toda. A retomada do ensino das humanidades, outrora prioritário e hoje sufocado pelas atenções voltadas para as ciências pragmáticas, é com certeza um dos pontos dessa revisão educacional. A história em sua diversidade interpretativa, a história natural e a história da vida em toda a sua riqueza, a literatura com todos os seus significados, e a filosofia com seus desdobramentos políticos e afetivos são capazes de dar um fundamento sólido à visão responsável de cada um nos desdobramentos da vida política da coletividade.

A moral humanística também pode ser ensinada expositivamente, e ela é o capítulo mais importante da filosofia. O aprendizado maior e mais enraizado se faz, todavia, neste particular, pela prática do debate generalizado, frequente e democratizado, no qual mestres e discípulos participem com os mesmos padrões e oportunidades, produzindo e cultivando, deixando emergir nesse processo a chamada razão comunicativa proposta por Habermas, que finda por propiciar a emergência também de uma razão afetiva entre as pessoas. Acho que esta é a grande inovação educacional capaz de formar a moral humanística que o mundo de hoje está pedindo tanto: a educação para o convívio com reconhecimento e respeito aos diferentes.

Nosso Rio de Janeiro, tão propício ao desenvolvimento do amor cidadão, não só pelas belas formações do mar e das montanhas mas também pela candura e pela musicalidade do seu povo, nosso Rio teve, também, uma experiência inovadora na Educação, com os CIEPs, as escolas de tempo integral, que cuidavam, com mais tempo, da formação da meninada no sentido mais amplo. Não chegou a introduzir ainda a prática dos primeiros debates cívico-filosóficos nessa formação, mas abriu pela primeira vez um espaço-tempo para esta introdução. Eram caras, dispendiosas essas escolas, e o projeto não foi à frente. Mas o aumento significativo das dotações orçamentárias para o setor é uma condição honestamente indispensável para realizar, na prática, a teórica e decantada priorização maior da Educação.

Claro que, além da Educação formal, o exemplo dos líderes, dos mestres, dos pais é condição também imprescindível nessa formação, mas o debate, isso que ele tem de consistente e característico, que é o reconhecimento dos outros participantes, a consideração da visão dos outros, dos seus interesses e sentimentos postos à luz, o debate aberto e verdadeiro é a chave para a Educação voltada para a cidadania, para o cultivo do amor cidadão, da fraternidade cidadã. É uma lição que vem dos gregos e tem dois mil e quinhentos anos.

Este amor é também razão, mas uma razão que não emana do “cogito” individual das pessoas e, sim, emerge do conhecimento mútuo dos sentimentos e das reflexões de cada um em relação a todos. É um amor que tem a luz da razão; é uma razão que tem o calor do amor.

Há uma bela dose de ingenuidade, de inocência em tudo que foi dito aqui: nesta crença, nesta expectativa humanística. É muito importante que se tenha consciência desta ingenuidade, mas é mais importante ainda que se a mantenha, que se persevere tenazmente nesta inocência.




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