Saturnino Braga


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CONTO: O DOCEIRO DA CUPERTINO

 

Passo ali com muita frequência nas minhas caminhadas matinais, na esquina de Humberto de Campos com Cupertino Durão; dei e recebi vários bons-dias antes da primeira conversação, que versou sobre futebol, porque eu usava, no dia, uma camisa do Botafogo e ele é vascaíno, falamos mal do Flamengo, nosso ponto de encontro, eu e o doceiro Waldemar, perguntei-lhe o nome.

 

Ele não tem a perna direita, perdida há oito anos numa queda de motocicleta, ao tempo em que era motobói. E todo dia, sai antes das seis da Rocinha, onde mora, e vem de muletas, com a mulher caminhando, ela empurrando um carrinho-de-mão cheio de doces feitos por ela mesma. Montam aquele tabuleiro-barraquinha na esquina e ele fica o dia a vender, fazendo um pregão assim de hora em hora, uma melodia sobre cocadas, bolo de aipim, bolo de milho, papa de milho, bolo de laranja. O tabuleiro é uma caixa com tampo de vidro e uma resistenciazinha elétrica que mantém um calorzinho nos bolos. Se a venda vai muito bem pela manhã, ele avisa por celular e a mulher traz uma reposição para a tarde. Às seis horas ele encerra, desmonta tudo, guarda a barraquinha no edifício em frente e volta para casa. É longe, ele volta de ônibus. Tudo bem, mas porque não fica num ponto mais perto da Rocinha? Bem, respondeu, ele trabalhou muito para o Doutor Rodrigo, era o motobói do escritório, e ali em frente, no segundo andar, mora o antigo patrão que guarda a barraquinha e deixa ele ligar a eletricidade do calorzinho.

 

É um homem muito bom aquele Doutor Rodrigo, mantém aquela ajuda de apoio e ainda compra doces quase todo dia, gosta muito do bolo de aipim, é do Espírito Santo e diz que na terra dele se aprecia muito o bolo de aipim e a papa de milho, desde menino ele degustava essas coisas E elogiava o doce da Terezinha: “Sua mulher tem mão de campista”, dizia. Quando não sai com pressa, para ali de manhã e conversa, gosta de conversar, fala de Cachoeiro do Itapemirim, isso era o que mais agradava a Waldemar, a atenção do Doutor, a conversa serena e sábia, engraçada muitas vezes com anedotas, lembranças, sabia de coisas aquele homem.

 

– Dei sorte no azar, seu Abreu -- não sabia o meu nome, me chamava assim por causa do Loco Abreu, um atacante do Botafogo que dizia se parecer comigo.

 

– Dei sorte de não perder a fala, podia ter batido com a cabeça na queda, podia ter ficado cego, ou sem fala, a perna é o de menos nisso tudo, a vista e a fala é tudo, seu Abreu, a fala principalmente.

 

Da segunda vez que disse aquilo eu indaguei, sim, a vista eu compreendia mas por que a fala era tão importante?

 

– A fala é a mente da gente. A gente pensa por palavras, não pensa feito cachorro; quem perde a fala perde todo o pensamento, que é a graça da vida. Eu posso discutir futebol com o senhor como posso lhe falar sobre os benefícios da cocada, a história da cocada que vem de Pernambuco, eu posso ver uma bela vista, contemplar, mas só posso lhe contar sobre essa vista por meio das palavras, pela fala, os escritores são contadores por palavras, a palavra é o dom do homem, é o pensamento, eu gostava um dia de aprender filosofia.

 

Gostava mesmo era de falar:

 

– A fala é o convívio, é a vida, é o afeto da gente, seu Abreu.

 

– E a filosofia, o que você acha que é?

 

–Deve ser o ensinamento da vida, uma coisa assim; a pessoa tem que ter uma filosofia para saber o que pensar sobre as coisas; a filosofia sabe falar sobre as coisas todas da vida, a felicidade e o martírio, a razão das coisas, não a razão de Deus, aí é religião, eu não sou muito de igreja, apesar que respeito e reconheço, é importante para tirar gente da beira da cova e puxar pra cima, já vi muito. Mas gosto mesmo é da razão das coisas, da vida, da filosofia.

 

– E você pensa muito nas coisas da vida, Waldemar?

 

– Eu procuro pensar, Seu Abreu, mas me falta a substância, quero dizer, as palavras próprias da filosofia, aquelas que dizem o que é isso e aquilo, o que é certo e errado, bom e ruim, com razões na base, isso é filosofia, eu sei, o saber da vida e da morte, já ouvi contar de Sócrates, o fundador da matéria, que foi obrigado a beber veneno porque sabia demais das coisas, sabia dizer as coisas e o povo ficava danado de inveja e condenou ele, isso tudo eu queria saber melhor.

 

– Tem livro sobre isso, Waldemar, você lê bem, você gosta de ler?

 

– Doutor Rodrigo já me deu, eu li, eu quase li, isto é, eu li bastante, apesar que eu canso e pego no cochilo, mas li sim, mas acaba que fica muito espalhada a coisa, um filósofo em cada capítulo, cada um diz diferente, eu queria um saber que fosse coisa certa, isso é isso, aquilo é aquilo.

 

– Mas filosofia é assim mesmo, Waldemar, é discussão, cada um apresenta sua idéia.

 

– Eu sei, Seu Abreu, eu sei que é assim mesmo, sei que cada lugar tem a sua filosofia, a nossa não é a da França nem a da China, o povo de Pernambuco de onde eu venho, não tem a mesma filosofia daqui do Rio, que é mais larga, mais frouxa, mais alegre, eu sei, mas sei também que existem filosofias mais fortes, filosofias de alemão, o alemão é uma língua muito forte, eu sei desse Marx que revolucionou o mundo, alemão, a filosofia dele, por exemplo, é forte, eu queria aprender dele e de outros principais, mas não de todos que escreveram, fica uma confusão, a gente se perde, a gente tem de ter caráter.

 

Caráter, que interessante, ligar filosofia com caráter, era um tipo aquele Waldemar, tinha uma sabedoria, sem uma perna e sempre bem disposto e bem falante, agitado, eu gostava de conversar um pouco quando passava ali, ouvi-lo, sempre uma surpresa. E uma vez passei e vi ele acarinhando o braço de uma bela moça ruiva e branquinha que sorria e olhava para ele, passei discreto e só dei bom-dia aquela vez. Ele me chamou e me apresentou a Dorothy, que trabalhava na agência do Correio bem em frente, e chegava todo dia um pouco antes das oito.

 

Waldemar tinha um rosto expressivo, uns olhos longínquos, de horizonte, um nariz hiperbólico e correto, uma boca pequena mas severa, afeita a proferir, ele gostava, a pele era clara, acho que de holandês nordestino.

 

Na vez seguinte perguntei por Dorothy: “Ah, é uma jóia da minha vida, passa aqui todo dia e me olha, e me fala, por pura bondade, concessão de moça generosa, nenhum amor, ninguém ama um perneta”.

 

– Mas você tem amor por ela...

 

– Ah, Seu Abreu, eu queria também ser poeta, saber filosofia e aprender poesia, na minha escola de pequeno a gente lia poesia, Castro Alves, Gonçalves Dias, a gente recitava, saber poesia é conhecer as palavras certas, as palavras que servem, que conseguem fazer o serviço de dizer as coisas certas, de maneira certa, as palavras são feitas para servir, por exemplo, minha patroa é minha vida, eu não vivo sem ela, eu já teria morrido, posso dizer que amo ela, e amo mesmo, a palavra aqui serve perfeitamente. Mas a moça Dorothy tem de ter outra palavra, eu não conheço, a palavra certa para dizer da graça, que desce do céu, eu fico olhando, contemplando, alisando ela, ela deixa de pura bondade, sorrindo, eu fico muito tempo pensando nela, sou capaz de passar o dia pensando, de um jeito carinhoso de pensar, não é de safadeza não, eu penso na figura dela assim iluminada, ela tem uma luz naquela brancura, eu não penso nos órgãos dela, eu penso só na pele, na finura daquela pele tão clara, fico pensando e fico vendo, fico vendo, quase tocando, quase cantando.

 

 

Ele falando e eu me encantando, nossas conversas são assim, eu gosto e ele gosta. Compro sempre um doce que não como na hora, levo para casa e o dou à Neide, a babá do segundo andar, volumosa e feliz, que aprecia e agradece. Compro de homenagem, faria com muito gosto outras homenagens, como, por exemplo, falar dele aqui neste conto. Não sei nada dos seus outros atos de vida fora desta esquina, não sei quanto tempo ainda o verei mas o tenho como uma referência de sabedoria humana, o que importa, já o tenho como um dos pontos de luz da minha vida contada. Homenageio-o fazendo na minha mente a imagem dele alisando a sua Dorothy, sem safadeza, como ele diz, ela despida na cama mas ele só contemplando e alisando com erotismo ingênuo, talvez a beijando aqui e ali, nos pontos mais delicados e preciosos de sua tez luminosa de escocesa das Terras Altas. Ele no puro deleite, ela na pura bondade, os dois em pureza, sou capaz de imaginar e ver, ele com certeza seria capaz de dizer, de aprender poesia falando e descrevendo esta cena de sempre, sem tempo nem espaço.

 

 

 

 



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