Saturnino Braga


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ARTIGO: NA POLÍTICA: BONS VENTOS PARA OS DUZENTOS ANOS
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ARTIGO: O MISTÉRIO DA LITERATURA
ARTIGO: UM NOVO MUNDO
ARTIGO: O DESENVOLVIMENTO SOCIAL
ENTREVISTA: NAÇÃO BRASILEIRA QUER UM ESTADO QUE SEJA PRESENTE E ATUANTE
ENTREVISTA: ROBERTO SATURNINO BRAGA, DEPOIS DA POLÍTICA, FINALMENTE NA IDADE DA RAZÃO
CONTO: SABER
CONTO: OS PRIMOS DE SÃO CRISTÓVÃO
CONTO: A BRIGA
CONTO: O TREZE
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CONTO: O PORTEIRO NEGRO
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CONTO: O FOTÓGRAFO
CONTO: MARCHAS ANTIGAS
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CONTO: DOIS BEIJOS
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CONTO: A DECISÃO
LIVROS
CONTO: O TREZE

 

E há os que não fazem nada, antigamente chamados de vadios e perseguidos com rigor pela polícia. Mudou essa atitude em razão de circunstâncias novas, de boas sementes trazidas de fora e medradas no novo clima da democracia, no amanho da cidadania, direitos  humanos, essas coisas. Mudou também o modo de ver esses concidadãos; alargou-se o horizonte filosófico da sociedade, abrindo espaço para a admissão de mais esse direito: o de não fazer nada, como direito de qualquer um e não só dos nobres de família que sempre o tiveram. Sim, não havia aqui, desde sempre, nada parecido com uma ética do trabalho, e o ócio era honorável, emblema das famílias do patriciado. Vadiagem era uma expressão que se aplicava tão-somente ao povo, aos brutos, especialmente aos negros, a quem competia o esforço do trabalho.. Enfim, isso acabou e não se prende mais ninguém por vadiagem. Há que compreender, todavia, que o fazer nada, para os que não são ricos, demanda habilidades muito especiais no conseguir o necessário pão de cada dia. Talentos e flexibilidades. Pelo menos uma destreza no falar e no agir, no gesto e no olhar, no dizer esperto e na mentira leve, na simpatia do trato em geral. Era o Treze.

 

Não fazia nada; ou, melhor qualificando, nada de produtivo; no mais, fazia tudo. Tinha uma pequena banca de caixote na rua Alcindo Guanabara, ao lado da Câmara de Vereadores, e ali vendia  balas, bombons e amendoins, por vezes sabonetes, ao lado um isopor com refrigerantes e cerveja, ali cantava e discursava na rua, de microfone virtual entrevistava pessoas de índole branda, era um comunicador, fazia músicas na pauta do pensamento popular do dia, e desenhava também, conseguia folhas de computador e no verso fazia suas sátiras que exibia, coloridas no lápis de cera. Não era, pois. um desocupado, tampouco um preguiçoso, fazia tudo o que a oportunidade lhe trazia, com índole artística, diariamente estava em sua banca, de manhã ao fim da tarde, ajudando nas manobras do estacionamento dos vereadores e ganhando pequenas propinas.

 

Tinha tido, outrora, emprego de carteira e salário na construção; a queda de um ferro lhe ferira a perna, fundo, e desse ferimento ficou-lhe um leve manquejamento e uma pequenina aposentadoria por invalidez. De uma indenização fez uma laje no Morro dos Macacos, onde então residia com Luciana. Era seu patrimônio, tirava na laje um aluguel.

 

Morava hoje no Borel, num quarto de Dona Conceição. Tinha a mãe ainda nos Macacos, idosa e resmungona, religiosa, não o acolhia, não confiava, era cuidada pela neta, filha dele, Treze, que enviuvara.

 

A filha era negra de pele macia, alta e esbelta, a genética dele que era assim e tinha feições afiladas. Era bela, formosa. Frequentava a banca, ao menos uma vez na semana ia ver o pai, dar notícia da avó e dela mesma, que estudava no SENAC, corte, costura e estilismo, tinha metas. Era moça responsável, tinha a religião da avó e o cuidado com o pai. Numa dessas visitas à banca, foi vista pelo vereador Saulo, Presidente da Câmara, e o assessor Germano, fiel chefe da segurança da Casa, viera depois lhe dizer que o Presidente apreciara muito a menina, como anúncio de um trunfo.

 

Não disse nada, o Treze, não fez cara, tinha juízo, mas ficou grilado, conhecia a humanidade, e falou com Luizinho, o vereador do Borel, que tinha seu voto e seu trabalho de cabo, e andava até querendo instalar uma rádio comunitária no Borel, propondo a ele, Treze, ser o locutor, pela destreza de fala que tinha. Falou, contou. Luizinho sabia bem quem era o Presidente mas minimizou, ficasse quieto, na dele, não temesse, não desse parte de temor, temor, no caso, de perder a banca, a autorização da banca que era da Câmara, tinha sido arranjada por ele, Luizinho.

 

Fingiu que relaxou, abriu uma cerveja do isopor e dividiu com Luizinho; oferecimento seu. Puxou um foguete da caixa, tinha sempre uma caixa de foguetes, e acendeu, espocou. Estava bem e festejava. Conhecia, todavia, o ser dos homens; ligou para Betinha e disse que não aparecesse por algum tempo falariam pelo telefone, ele iria um dia ver a mãe e conversar com ela nos Macacos.

 

Esperou. E veio a proposta objetiva, dias depois: Germano disse que o chefe oferecia um DAS que daria a ele, Treze, algo como dois mil todo mês, garantido, funcionário fichado, e oferecia à moça cinco mil de prêmio pelo encontro. Ele ouviu sério, tinha os controles de convivência, sabia manejar a vida, tinha passado sofrimentos, quase perdido a perna, amava a mulher que havia morrido de um nada, de repente, uma coisa como uma explosão no cérebro, os médicos falaram em aneurisma, coisa que devia ter de nascença, bonita que ela só, sestrosa, passista da Vila, passara por muitas, o Treze, expulso dos Macacos pelo Carlitos, o chefe, por uma mentira do Belão, apaixonado pela Luciana, louco para comer a mulher, inventou que ele, Treze, assassinara a mulher de ciúme dele, encrenca dos demônios, barra bem pesada, mas sabia rastejar sob o fogo,  e sair ileso na dignidade.

 

Tinha os controles, segurou a indignação e respondeu calmo, que não podia aceitar, e nem podia fazer a moça aceitar, ela era religiosa e muito independente, altiva, que agradecesse ao chefe mas não tinha como. E falou com Luizinho, contou, oh, que erro, o vereador arroxeou de raiva, ele viu logo que Luizinho também estava gamado pela Betinha, razão daquele espalhafato, ia relatar ao vereador Cerqueira e fazer uma denúncia pública, pela tribuna e pela imprensa, um escândalo, ih, que erro, foi um custo para parar o Luizinho, pedir que esperasse um pouco, que aquilo ia morrer ali sem conseqüência, que o movimento dele, Luizinho, podia prejudicá-lo, a ele, Treze, um custo, mas conseguiu, abriu outra cerveja e soltou outro foguete. Disse ao vereador; “Sabe? Gosto muito da sua pessoa”.

 

Na outra semana, claro, já esperava, veio outra proposta: o Presidente mantinha a garantia do DAS e oferecia ademais, a ele também, Treze, um prêmio de cinco mil, e dobrava o prêmio da moça para dez mil pelo encontro. Irrecusável. E a nova proposta vinha com um tom diferente, com um acento de autoridade impaciente.

 

Ah, a vida lhe pregava mais uma, tinha de sair daquele lugar tão propício, não pelo ganho que tirava mas pela simpatia do movimento, conhecia as pessoas, era visto e considerado, era até mesmo escutado nos seus pronunciamentos no microfone virtual. Que transtorno dos infernos, tinha de procurar outro sítio, andou rondando pela Assembléia, na Dom Manuel, perto do Foro, perscrutando, avaliando. Dois dias, três, rondando, sentindo a dificuldade, confirmando o que já esperava, era graduado em realidade, a praça era muito concorrida, de todos os lados, muito difícil abrir ali um espaço, foi notando e sentindo caras feias, conflitos certos, não dava. De noite na cama, revendo e pensando, viu que não dava, merda de vida, mas já tinha vencido outros apertos, não ia afundar naquele poço de desassossego e desespero.

 

Oh, que noite filosófica, só pensando, meditando a vida. Decidiu.

 

Não disse nada a ninguém, nem ao Luizinho, não disse nada à Betinha, tomou a decisão da sabedoria e da dignidade e fez o que tinha de fazer, largou a banca ali mesmo, o caixote, o isopor, tomou as duas cervejas que tinha, devagar, cumprimentando um e outro, respirando e filosofando, tinha o amparo mínimo de renda, tinha engenho e tinha arte, largava aquilo, não ia lidar com torpezas, tinha ainda quatro foguetes, soltou os quatro, um a um, espaçadamente, as pessoas imaginando e ele nem nada, comemorava a decisão, terminou e foi saindo, de olhos para cima, andando seu andar de leve claudicar, entoando uma canção antiga, andando, andando, foi saindo.



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