Saturnino Braga


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     Uma voz cantava ao longe, mas era nítida, e bela, e clara, era voz masculina de tenor, cantava marchas antigas de carnaval, a Florisbela, o Malmequer, as Pastorinhas, a mais comovente de tão bonita, Sérgio Lúcio parou, sem nenhuma atenção mais na extensa página de mensagens da sua caixa de entrada, na função matinal que exercia de conferir o que vinha pela internet, abrir e ler algumas de maior interesse, rejeitar outras que não chamavam por sua leitura; a voz, sim, chamava o seu ser, conhecia aquela voz de quase toda manhã, que vinha de um apartamento alto do edifício vizinho.

     Era um afeiçoado, mais, Sérgio Lúcio era um enamorado mesmo de vozes cantantes, como aquela que afeitava muitas vezes suas manhãs. O canto era a expressão  musical primeira do ser humano, a mais humana e sublime das expressões musicais, um fluxo de vibrações que vinha diretamente da alma, aquela que mais profundamente lhe penetrava e enlevava o ser. Tinha estudado canto na juventude, tinha aprendido a manejar a voz e tirar dela os sons da emoção envolvente, sabia analisar e valorizar uma voz cantante.


     Era diferente naquela manhã, porque ao invés de arpejos e escalas de exercício, e de árias italianas e francesas de sempre, cantava marchas de carnaval que chamavam lembranças ainda bem vivas, de infância, quando cantava com Bernardo, o irmão mais velho, para o público familiar na casa do avô: pais, tios, primos e avós, guardava ainda a antiga  sensação de enfunar a alma com aquela atenção especial sobre ele. Faziam uma dupla, como Joel e Gaucho; Gisela, a professora de piano, ensinava a segunda voz que Bernardo cantava sem muita musicalidade mas corretamente, enquanto ele, Luiz Sérgio, fazia a melodia principal com a sua voz apurada que mais encantava os ouvintes, ele sentia.

    Cantavam numa sala escura e não muito grande, sempre fechada e separada por uma cortina verde da adjacente sala de estar ampla, viva, onde se conversava em família aos domingos. Aquela era uma sala de visitas que abria para a frente da casa, mobiliada com mais cuidado e preservada do uso diário. E era ali, que, sentados em duas cadeiras postas como num palco, eles se apresentavam quando a mãe abria a cortina para a sala de estar onde todos esperavam. Levantavam-se e agradeciam as palmas, como dois artistas, oito e dez anos tinham, mais ou menos; sentavam-se e logo iniciavam o espetáculo, duas ou três peças, ensaiadas com Gisela, e recebiam a bênção das palmas que até hoje ele guardava num dos valiosos escrínios da alma.

     Aurora, se você fosse sincera, um lindo apartamento com porteiro e elevador, e ar refrigerado para os dias de calor, isso nos anos trinta era um sucesso, geral e particular deles dois, como Joel e Gaúcho. Um pierrot apaixonado que vivia cantando e acabou chorando por causa de uma colombina, era o que ele, Luiz Sérgio, cantava com mais sentimento, mais que sentindo, vivendo mesmo a tristeza irremediável do pierrot, o que era captado e emocionava os ouvintes. Oh, vivências e recordações preciosas evocadas pelo encantamento daquela voz vizinha.

  Parou completamente a contagem do movimento e transportou-se inteiro ao passado, para aquela sala de visitas obscura e misteriosa: tinha a porta da frente, para o jardim e a rua, e a porta de trás que dava para a sala de jantar, ambas sempre fechadas; tinha a janela do lado, também sempre fechada, e na outra parede a grande abertura para a sala de estar, igualmente fechada pela cortina verde. Era menino, impressionável com aquele ambiente escuro e misterioso, com um sofá e duas poltronas de veludo verde escuro, a mesa com objetos de prata embaçados, algo como um aparelho de chá, e notadamente, as duas coisas que mexiam suas entranhas de medo: o quadro do Rigoleto e a granada da Revolução Paulista.

    O quadro era escuro como a sala, difícil distinguir seus detalhes, um homem deformado, não só corcunda mas de face distorcida e olhar desvairado, segurando um chocalho, vestido muito estranhamente, como uma espécie de palhaço, o bobo da corte, aquele que divertia o rei e os nobres, lhe disseram, figura dos tempos antigos das velhas monarquias. O avô explicou melhor o que era, o que representava, no dia em que viu o olhar siderado de Luiz Sérgio sobre o quadro: era um personagem de uma famosa ópera italiana, o Rigoleto, que vivia uma tragédia e cantava árias lindíssimas até hoje encenadas e adoradas. Aquele quadro retratava um grande barítono do fim do século dezenove no palco, caracterizado como Rigoleto, o nome da ópera e do personagem, que era, como disse, um bobo da corte, uma espécie de humorista e satirista daqueles tempos. E disse mais, assim como fazem certos avós que, mesmo carinhosos, querem ser hieráticos, e sentem não sei que prazer meio sádico em impressionar os inocentes, produzir neles o choque do assombro, indelével, o avô disse, seriamente, que à noite, quando todos  dormiam, aquele Rigoleto descia do quadro e andava pela casa, à procura da sua filha que, na ópera, tinha sido assassinada. Por isso ele, avô, nunca tinha permitido que qualquer menina, moça, dormisse na sua casa desde aquele quadro estava lá: o Rigoleto podia levá-la pensando que fosse sua filha. Quem sabe se, velho como estava, o Rigoleto de repente podia confundir uma menina com um menino. Brincadeira de muito mau gosto, gozação maldosa e gratuita da ignorância de antigamente, e até agora Luiz Sérgio ainda podia estremecer daquela velha ameaça.


   O outro objeto misterioso era uma granada de mão, obviamente esvaziada do conteúdo explosivo, e encimada por uma bandeirinha paulista para servir de relíquia da luta da Revolução Constitucionalista de 1932. E realmente naquela revolta tinha havido luta, e numa das batalhas, relatava-se, havia morrido Tancredinho, o filho mais novo do avô, irmão da mãe de Luiz Sérgio. Estudante de agronomia em Campinas, tinha se apaixonado pela causa paulista e engajara-se na tropa revolucionária, para morrer estupidamente, em plena juventude, para desgosto irreparável dos velhos avós. Com este assunto, o avô evidentemente não brincava, mas o próprio Luiz Sérgio  construía a analogia e imaginava que toda noite Tancredinho, que ele só conhecia de retratos, vinha buscar a sua granada, que poderia, lançada a tempo, tê-lo salvo do ferimento mortal.


   Eram lembranças, desse tipo que suscita uma emoção serena; lembranças fortes de menino envolvidas nos bálsamos do tempo: A boa lembrança: o entono que inundava seu corpo por dentro e brilhava nos olhos, quando terminava a peça, sabendo que havia cantado bem, e recebia as palmas sentindo que eram verdadeiras. E aquela outra, aflitiva, do enfrentamento, toda vez que entrava naquela sala e sentia um tremor na espinha disparado pelo contato com os arcanos daquela atmosfera obscura, concentrados ali naquele quadro e naquela granada. Entrar naquela sala não era uma proibição, mas era algo que ninguém fazia, simplesmente porque não havia nunca nada a fazer ali, senão, talvez uma vez por semana, passar um espanador e um pano, acendendo a luz, sem sequer abrir a janela.


    Luiz Sérgio parou de vez diante do computador; a contagem do movimento começou a retroceder, e ele deixou correr o impulso e começou a cantar, em falsete, depois na voz, pianíssimo, depois piano, e logo médio e forte, a toda voz, era bela ainda a sua voz, e clara, de tenor, como a que escutava. Em uníssono começou a cantar A Jardineira, que era muito mais bonita que a camélia que morreu. A vida vivia de novo, linda.



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