Saturnino Braga


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ARTIGO: O ÓDIO NA POLÍTICA
ARTIGO: ENERGIA E CRIATIVIDADE
ARTIGO: SOBREVIVÊNCIA
ARTIGO: A IMPORTÂNCIA DA DIMENSÃO POLÍTICA NO DESENVOLVIMENTO
ARTIGO: O AMOR CIDADÃO
ARTIGO: NA POLÍTICA: BONS VENTOS PARA OS DUZENTOS ANOS
ARTIGO: JORNADA DE SEIS HORAS
ARTIGO: O MISTÉRIO DA LITERATURA
ARTIGO: UM NOVO MUNDO
ARTIGO: O DESENVOLVIMENTO SOCIAL
ENTREVISTA: NAÇÃO BRASILEIRA QUER UM ESTADO QUE SEJA PRESENTE E ATUANTE
ENTREVISTA: ROBERTO SATURNINO BRAGA, DEPOIS DA POLÍTICA, FINALMENTE NA IDADE DA RAZÃO
CONTO: SABER
CONTO: OS PRIMOS DE SÃO CRISTÓVÃO
CONTO: A BRIGA
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CONTO: O DOCEIRO DA CUPERTINO
CONTO: O PORTEIRO NEGRO
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CONTO: O FOTÓGRAFO
CONTO: MARCHAS ANTIGAS
CONTO: AMERICO DA PRAIA DO PINTO
CONTO: O SORRISO DE JORGINA
CONTO: AQUELE SENTIMENTO
CONTO: A MULHER MÔNICA
CONTO: DOIS BEIJOS
CONTO: MINDINHA
CONTO: IMELDA
CONTO: A DECISÃO
LIVROS
CONTO: AMERICO DA PRAIA DO PINTO



Américo era o nome que a mãe havia escolhido para o seu primeiro filho, seu único filho, o nome do descobridor do Novo Mundo, como ela havia aprendido naquele ano antigo de 1934, quando ele nasceu. Não se aprendia, então, quase nada além das coisas do dia a dia naquele  lugar distante que era Ponte Nova em Minas Gerais. Só pelo rádio, a grande novidade, se podia ganhar algum conhecimento de coisas novas, e Dona Ana soube por Sebastiana, que tinha escutado no rádio de Dona Sônia, que aquele era o dia do descobrimento da América, o Novo Mundo, e que o homem que havia feito esse descobrimento tão importante se chamava Américo, daí o nome da terra. Equívoco que bem mais tarde se veio a esclarecer, mas ficou o nome do menino nascido em 12 de outubro: Américo.

Foi único filho porque o pai sofrera encantamento de histórias de um alfaiate da cidade, e de um sapateiro que era muito amigo dele, e andava há tempos freqüentando reuniões sobre uma revolução que ia ter no Brasil para acabar com toda a injustiça dos endinheirados que mandavam na política; e de repente a revolução tinha fracassado e começaram a prender gente, e o alfaiate desapareceu fugido, e o pai, o Wenceslau, também largou mulher e filho e se mandou de medo, e nunca mais ninguém ouviu falar dele, não se sabe o que aconteceu, se foi preso, se ficou louco, se morreu. E Dona Ana que antes não sabia de nada aos poucos foi sabendo de tudo, menos da sorte do marido que era um homem bom, e era o seu homem. O sapateiro amigo, que não tinha fugido, contou tudo das reuniões, especialmente da última em que o alfaiate apavorado disse que ia fugir, e o Wenceslau que era escuro ficara branco e mudo.


Dona Ana esperou semanas e meses, esperou uma carta, um recado, um aviso, e nada. Teve que voltar a morar com os pais, na fazenda do seu Nilton, e foi criando o menino Américo. Na fazenda tinha uma escolinha e ele aprendeu a ler, e também a fazer contas.


E outras coisas foi aprendendo e crescendo, começou a atender no armazém da fazenda, esperto como era, já fazendo dez anos. Foi quando um dia chegou do nada uma informação, um comentário de Seu Renato com o Clemente da Sebastiana, que o Rodolfo, que era de Ponte Nova e estava trabalhando em Volta Redonda, onde se construía a grande usina, o Rodolfo tinha visto o Wenceslau naquela cidade, que era cheia de mineiros, muitos de Ponte Nova.


Foi tomada de uma inquietação que não deixava ela pensar em outra coisa. Tinha dado o Wenceslau como perdido, não era possível que, estando vivo, não fizesse chegar a ela qualquer mensagem durante todo aquele tempo, mais de dez anos, não era possível, tinha morrido, tinha sido preso e acabado na prisão, como diziam ter acontecido com muitos. Mas de repente vinha a idéia de que na prisão tivesse desmiolado, perdido o senso e a memória das coisas, isso acontecia, diziam, mas por outro lado, se ele estivesse assim não ia reconhecer nem querer saber mais dela e do filho, podia até ter outra mulher. Mas não tinha paz da inquietação, Dona Ana, queria ver, tirar a prova, mas também não sabia onde encontrar o homem, bem, diziam, Volta Redonda era uma cidade pequena, lá todo mundo acabava se encontrando, foi pensando, foi pensando sem parar, o menino estava bem, estava encaminhado, mas era melhor se tivesse o pai, e ela queria muito, ah, queria muito ver novamente o Wenceslau, seu marido, seu homem.


Para ir a Volta Redonda, o melhor era pegar o trem da Leopoldina e ir direto para o Rio, e lá pegar o da Central que ia até Volta Redonda. E no Rio tinha o Dino, que era primo, gente da família que mantinha contato, mandava recados e até escrevia de vez em quando, e era gente muito boa, que tinha ido para a Capital e estava bem lá, podia ajudar na ida a Volta Redonda.


Chegaram no Rio, ela e o menino, tomaram um ônibus para o Leblon e chegaram na Praia do Pinto. Era quase noite já, e o Dino estava em casa, foram perguntando entre os barracos, o Dino era conhecido, era muito conhecido porque era muito diferente, alto, muito magro, o cabelo arrepiado, muito feio, um nariz esquisito, olhos arregalados, e era fanho ainda por cima, uma figura bem diferente, e uma pessoa muito boa, todos diziam.


Morava sozinho, recebeu-os muito bem, o recado tinha chegado e ele estava esperando. Ajeitou para eles ficarem ali no barraco aquela noite, no dia seguinte arrumava outro lugar, a favela estava cheia mas sempre se dava um jeito. Era de muita conversa, o Dino, mesmo com aquela voz rachada, mas foi logo dizendo que aquela idéia de Volta Redonda era uma jogada furada, totalmente, não iam encontrar o Wenceslau de jeito nenhum, era conversa fiada aquela história de que fulano contou que beltrano ouviu de cicrano que viu um sujeito que parecia ser o Wenceslau, ora, Ana,o Wenceslau era um homem muito correto, se tivesse vivo, com certeza, mas com certeza teria procurado ela, teria voltado ou teria mandado dizer onde estava, ela devia encarar a realidade, o Wenceslau tinha sido preso e assassinado por aquela polícia criminosa.

Dona Ama ouviu e se aquietou, a boa razão aquieta. Uma semana depois já tinha o seu quartinho, que o Dino havia feito junto ao barraco dele. Ela passava o dia lavando e arrumando coisas no barraco do Dino, fazendo a comida, e de noite dormia com o menino no seu quarto.

E o menino Américo florescia. O Dino fazia biscates com os construtores, no Leblon e nos bairros vizinhos; era ladrilheiro, aprendera a arte de assentar azulejos em cozinhas e banheiros, era rápido e caprichoso no serviço, e levava Américo de ajudante. Foi ficando encantado com a perícia do menino; que também desenvolvia sua meninice com os outros na Praia do Pinto: futebol, correrias no lodo da lagoa, papagaios, brigas de vez em quando e, no meio do ano, os balões, o fascínio do fazer, soltar, caçar e tascar balões.


Era maiorzinho que a média e tinha liderança, dava direções.  Eram quase sempre certas as direções que dava, mas um dia o deslumbramento de um cadilac estacionado na Afrânio de Melo Franco o perturbou. Experimentou e viu que o carro estava aberto. E não resistiu, entrou e começou a mexer no volante, nos pedais, na alavanca da marcha, simulando os gestos do motorista, quatro meninos que estavam com ele entraram também e nenhum deles percebeu a chegada do dono. Américo foi parar na delegacia, seguro pelo homem, os outros fugiram. Dona Ana foi avisada e saiu correndo, ficou lá com ele mais de duas horas, esperando chegar o Dino que foi chamado, e só então foram liberados, depois de um bom sermão. Dino atuou como pai e dali pra frente assumiu a condição, e botou Américo na escola.


Dino, há muito já era o pai. Dona Ana, já tinha bem passado dos trinta mas era mulher, tinha formas e carnes de mulher, gestos e fala de mulher, tinha cheiro de mulher, e Dino não tinha mulher. Dona Ana passou a dormir com ele e Américo ficou sozinho do seu quarto. Aceitou bem, compreendeu, já tinha um sentimento pelo Dino.


Sentia o apoio forte, a confiança completa no Dino, mas em baixo daquele sentimento vivia uma vibração, tênue mas permanente, de desassossego com o mistério que envolvia o pai verdadeiro, uma figura que conhecia do que tinha escutado, uma figura que estava dentro dele, demandando uma busca que tinha de fazer e não sabia por onde começar. Mais tarde conheceu gente que tinha participado daquele ideal e tinha sido presa em 35, gente até que tinha passado pela Ilha Grande e contava horrores, seria o caso? Interessou-se e começou a frequentar no alto do Jardim Botânico reuniões de jovens que discutiam política, sem contar para o Dino e para a mãe. Era o mistério do pai vibrando levezinho dentro dele, enquanto se fazia homem, agora sócio, parceiro do Dino no negócio de instalação de banheiros e cozinhas, tinha feito curso de bombeiro hidráulico. 

Fez-se homem respeitado e belo, apaixonou-se e casou-se com Josefina, uma secretária da Cruzada São Sebastião, que visitava sempre a Praia do Pinto em companhia do Cônego Volnei, na missão difícil de selecionar famílias que teriam prioridade para ocupar os apartamentos no conjunto. Foram morar no barraco vazio da família Dourado que tinha ido para a Cruzada. Era religiosa e muito escrupulosa, Josefina, o bastante para não se valer da posição que tinha e arranjar apartamento para eles. 

Foram assim dos últimos moradores da Praia do Pinto. Viveu todo o clima da remoção, ameaças, engodos, contava nas reuniões do grupo, Josefina não sabia, a tensão de todo dia, sempre crescendo, todo dia, Josefina chegou a admitir a mudança, foi conhecer a Cidade de Deus, voltou tentando convencer Américo, nunca, nunca, seu trabalho era todo no Leblon, em Ipanema, nunca, mas não era só por causa do trabalho, era também por uma questão de justiça, uma questão política, sim, uma questão política e decisiva, aquele era o governo do ódio, da elite opressora, daquele corvo odiento, oh, era uma questão de respeito ao pai, homenagem ao pai assassinado por aquela mesma gente, não sairia dali. 


E estava lá, dormindo com Josefina, Américo estava lá na noite do incêndio. Viveu o horror, abraçado à mulher diante do fogaréu, com uma raiva que moveria uma montanha, jurando vingança, abraçado a Josefina, junto com os outros moradores derradeiros, Dona Ana e Dino também, um pequeno grupo que olhava para ele, porque ele tinha previsto uma coisa como aquela, ele sabia dizer e explicar aquilo que eles sentiam, e ele tinha coragem mais que todos, todos em estado de choque, e de cólera. Chegaram os bombeiros, custaram a chegar, de propósito, a raiva crescia, cegava, Américo desenlaçou-se de Josefina e lançou-se aos bombeiros, derrubou o primeiro com uma cabeçada, e logo foi contido pelos outros, mas Aderbal também foi para a briga, Josefina gritava, todos gritavam, o fogo clareava a cena, outros três moradores se jogaram, a briga aumentou e virou violência incontida, um bombeiro deu uma machadada na clavícula de Américo, imobilizou-o de dor, e logo outra na cabeça que o prostrou no chão, Josefina correu sobre ele, pôs as mãos em desespero no sangue que escorria.




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