Saturnino Braga


ARTIGO: A NOVA DEMOCRACIA NO CONGRESSO DO CENTRO CELSO FURTADO
ARTIGO: O ÓDIO NA POLÍTICA
ARTIGO: ENERGIA E CRIATIVIDADE
ARTIGO: SOBREVIVÊNCIA
ARTIGO: A IMPORTÂNCIA DA DIMENSÃO POLÍTICA NO DESENVOLVIMENTO
ARTIGO: O AMOR CIDADÃO
ARTIGO: NA POLÍTICA: BONS VENTOS PARA OS DUZENTOS ANOS
ARTIGO: JORNADA DE SEIS HORAS
ARTIGO: O MISTÉRIO DA LITERATURA
ARTIGO: UM NOVO MUNDO
ARTIGO: O DESENVOLVIMENTO SOCIAL
ENTREVISTA: NAÇÃO BRASILEIRA QUER UM ESTADO QUE SEJA PRESENTE E ATUANTE
ENTREVISTA: ROBERTO SATURNINO BRAGA, DEPOIS DA POLÍTICA, FINALMENTE NA IDADE DA RAZÃO
CONTO: SABER
CONTO: OS PRIMOS DE SÃO CRISTÓVÃO
CONTO: A BRIGA
CONTO: O TREZE
CONTO: O DOCEIRO DA CUPERTINO
CONTO: O PORTEIRO NEGRO
CONTO: MARTIN
CONTO: O FOTÓGRAFO
CONTO: MARCHAS ANTIGAS
CONTO: AMERICO DA PRAIA DO PINTO
CONTO: O SORRISO DE JORGINA
CONTO: AQUELE SENTIMENTO
CONTO: A MULHER MÔNICA
CONTO: DOIS BEIJOS
CONTO: MINDINHA
CONTO: IMELDA
CONTO: A DECISÃO
LIVROS
ARTIGO: O ÓDIO NA POLÍTICA



O ódio é o sentimento torpe do ser humano, o mais negativo e pernicioso por todas as conseqüências perversas que gera, sobre o odiado como sobre o odiento, e a constatação se aplica genericamente ao ser do homem, tanto nas relações privadas como na vida política. Não preciso evocar exemplos históricos de atrocidades e calamidades produzidas pelo ódio cultivado políticamente, mas não posso deixar de lembrar dois episódios da história brasileira do meu tempo: o ódio a Getúlio Vargas em 54 e o ódio a João Goulart em 64, com toda a sequência negativa que tiveram. E me preocupa ver, hoje, crescer no horizonte o espectro do ódio a Dilma Roussef.

Os insultos à Presidenta na abertura da Copa em São Paulo foram, sim, muito significativos, pelo grau de veemência que tiveram, pela expressão de violência coletiva que mostraram, sem nenhum laivo de travessura ou brincadeira de mau gosto. Eu já tinha observado manifestações individuais de ódio ao PT, e a ela pessoalmente, até em pessoas muito amigas, que me causaram espanto. Mas o ódio paulista me deixou realmente preocupado. Não com receio de um novo golpe, já que as Forças Armadas Brasileiras, depois da ditadura, se conscientizaram definitivamente do seu papel primordial de manutenção da ordem constitucional. Não reconhecem a tortura por um sentimento de brio corporativo, mas não a praticarão jamais, nem usarão suas armas contra os poderes legítimos do País.

Meu receio é de uma contaminação larga deste ódio, que já é visível em muitos grupos além da elite branca, como disse com bom senso o Ministro Gilberto Carvalho. Meu medo é de um racha político tectônico, uma divisão profunda e irremediável do País que, ainda que mantida a ordem constitucional, crie um clima de desconfiança e animosidade radical cotidiana que inviabilize qualquer governança, que destrua a possibilidade de diálogo entre as partes e degenere em violência de rua permanente; algo como o que se observa hoje na Venezuela, que torna extremamente difícil a missão de governar.

Eu sou daqueles que acreditam na intervenção política invisível de poderes estrangeiros interessados em obstaculizar o crescimento que o Brasil vem tendo no mundo; uma intervenção muito sutil, oculta, competentemente disfarçada, efetuada por especialistas em manipulação dos sentimentos coletivos que trabalham com eficiência para produzir esses impasses políticos paralisantes. Poderes que estão evidentemente na Venezuela, e que estiveram presentes aqui na grande crise de 64, só que, então, de forma mais ostensiva, pois que enxergavam uma ameaça concreta de repetição no Continente da revolução cubana, o que os levaria até à guerra.

Bem, nessas condições, importa buscar internamente, com empenho, a superação desse ódio, e o caminho eficaz é o diálogo. O diálogo construtivista, habermasiano, em que cada parte reconhece que a outra tem razões dignas de atenção, que ambos são partidos de brasileiros que, mesmo que tenham interesses menos confessáveis, têm também razões fortes que sustentam seus modos de pensar e ver o destino do País.

Não é nada fácil a realização deste diálogo. A campanha eleitoral, com a fantástica penetração do debate político pela televisão, poderia ser uma excelente oportunidade. É forçoso reconhecer, entretanto, que o natural e inevitável acirramento da disputa pelos votos, próprio da democracia, cria um clima de alta voltagem que torna muito difícil, senão impossível, a abertura mental para este diálogo construtivista.

O ambiente mais propício ao seu desenvolvimento abre-se, a meu juízo, dentro dos conselhos e das conferências institucionalizados pelo Decreto de maio, (8.243) e esta é uma das virtudes absolutamente relevantes dessas entidades da sociedade civil, cujo funcionamento oferece o caminho para o desenvolvimento da nova democracia brasileira, a democracia participativa.

Claro que, classicamente, teoricamente, o foro maior para este diálogo é o Parlamento eleito pelo voto popular legitimador. O diálogo político é, aliás, uma das três funções principais de responsabilidade do Parlamento na sua definição clássica, além da função legislativa e da fiscalização do Executivo. E transforma-se mesmo na função mais importante nesses momentos históricos em que o acirramento do confronto de posições levanta o ódio político destruidor. Entretanto, no Parlamento, órgão político por excelência, tende a prevalecer o mesmo clima de disputa, de cálculo político das perspectivas de voto, que existe nos debates de campanha eleitoral, poluindo o clima de abertura construtivista. Ademais de estarem os parlamentares sempre cerceados de alguma forma pela disciplina partidária, mais forte ou menos, mas sempre presente. Apesar desses escolhos, todavia, é imprescindível que o Parlamento Brasileiro busque arejar o clima interno para propiciar este diálogo, e há sempre vozes responsáveis com este disposição.

Os conselhos da sociedade civil, entretanto, aparecem como instâncias mais abertas à viabilização deste diálogo partidariamente descomprometido, mais capaz de escutar, construtivamente, as razões contrárias. Esta expressão construtivamente significa, precisamente, a disposição, a vontade de ouvir e compreender as razões da parte contrária, na tentativa de construir consensos. Essas novas instâncias da nossa vida política não se sobrepõem nem se conflitam com a instituição clássica do Parlamento representativo, mas atuam paralelamente em complemento e em auxílio valioso para a busca de consensos políticos básicos, necessários não só ao funcionamento sadio do Estado Democrático, mas ao próprio espírito unificador que constitui uma nação. Esses Conselhos e Conferências são, como eu disse anteriormente, a novidade recente mais criativa e mais promissora da nossa democracia; uma novidade que nos coloca verdadeiramente na vanguarda mundial da construção política de hoje, e que pode ser decisiva para a superação imprescindível do clima de ódio que reponta no horizonte.

 



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