Saturnino Braga


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CONTO: AQUELE SENTIMENTO
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CONTO: A DECISÃO
LIVROS
CONTO: AQUELE SENTIMENTO


     Portentos, verdadeiros portentos, a palavra lhe viera fácil com exatidão, gostava de achar as palavras certas, aquelas árvores gigantescas eram portentos da natureza; como as montanhas da terra, elas eram inabaláveis na sua força e na sua grandeza, eram majestades, os troncos e as raízes tinham expressões fortes, eram esculturas do tempo que contavam uma história centenária daquele Campo de Santana, era assim que se chamava antigamente, Tião sabia que ali muita história do Brasil tinha acontecido. E se lembrou do poema que fora obrigado a decorar na escola em Trajano, tanto tempo atrás, estava na memória, começava “Olha estas velhas árvores, mais belas do que as árvores moças, mais amigas” ... não lembrava o resto e não sabia o autor,  era um poeta brasileiro importante mas não sabia mais, só achava que tinha escrito aqueles versos ali, sentado naquele banco, como ele, olhando as árvores embasbacado.


     Tião tinha uma biblioteca no Juramento, uma coisa que tinha também uma história de anos, que começara com uma barraca de discos e revistas na feira de Anchieta, e até roupas usadas. O mais era o gosto que tinha de ler, que vinha desde aquela professora da escola de Trajano. Que mulher formidável, torta de figura, como aqueles troncos, e sábia de coisas tão importantes que tinha aprendido com ela. Oh, vinha aquele sentimento.


   Lia tudo, desde aquela época, qualquer coisa, guardava livros, marcadores de livros, colecionava. Era porteiro de noite em Botafogo, noite sim, noite não, ficava lendo. E as pessoas o indicavam como recebedor de livros de gente que queria se desfazer deles, foi acumulando, Geisa reclamando, com razão, resmungando mas aceitando aquela mania dele, e o depósito crescendo coberto de zinco ao lado do barraco. Anos. Até que o pessoal da CUFA viu aquilo e propôs ajuda para ele montar uma biblioteca.

    Davam-lhe meio salário e buscavam livros na Kombi onde oferecessem, e Tião foi fazendo uma clientela, ali no Morro e nas adjacências. Emprestava a um real, anotava nome e endereço e muito raramente os livros não eram devolvidos. Vendia também a um  real livros que não tinham procura nenhuma. Pois a Rádio MEC tinha sabido daquilo e queria fazer uma entrevista com ele; estava ali aguardando a hora, meio nervoso, claro, mas um nervoso positivo, era a sua opotunidade, era só contar tudo como fazia, não ia inventar nada. Só procurava uma palavra pouco usada, diferente, que mostrasse sua cultura. Gostava de cultivar e usar palavras de destaque, as pessoas se destacavam pelas palavras que usavam, diferentes. As pessoas que liam muito, como ele, usavam palavras de destaque Estava pensando em uma assim como vilegiatura. Podia, logo de início, na entrevista, dizer que eles, da Rádio MEC, tinham a sorte de trabalhar naquele local privilegiado, era uma boa palavra, também. Podiam, todo dia, no horário do almoço, passar uma meia hora de vilegiatura naquela praça maravilhosa, olhando aquelas árvores portentosas, relembrando a história passada ali. Era uma boa, Mariana ia ficar bem impressionada.

    Tinha conseguido avisar Mariana daquela entrevista. Assim como quem dava uma notícia comum, sem importância maior, tinha avisado a hora e a estação, aquela estação que ela nem conhecia, que era a rádio que as pessoas cultas escutavam, não tinha dito isto mas com certeza ela ia saber, ia reparar, Mariana escutava e admirava as palavras diferentes que ele usava. Mariana admirava o trabalho dele naquela biblioteca. Dizia mesmo, que o admirava. Não dizia que o amava, como ele a amava e desejava tanto que ela retribuísse. Mas ela dizia que o admirava e já era um primeiro passo. Importante. Havia a diferença grande de idade, Mariana era moça. Mas podia chegar a  ter algum amor por ele, podia ser condescendente, se o admirava tanto, como dizia, podia deixar que ele a beijasse na boca e acariciasse seu corpo, o contato físico era o começo do amor de coração.

     
    Mariana vestida de cor-de-rosa e sapato branco de salto alto, oh, aquele sentimento, Tião olhava as árvores e já nem pensava no portento, pensava em Mariana, tão religiosa, deliciosa, aquele sentimento. Da última vez ela tinha chegado a dizer que lamentava não poder corresponder ao amor dele, como se dissesse que gostaria de ter amor por ele, quase como se dissesse que o amava, a admiração não deixava de ser uma forma de amor. Se concordasse em um contato de corpo, um beijo que fosse, podia resultar em amor de alma, mesmo ele sendo quarenta anos mais velho. Antigamente havia casamentos assim arranjados, de conveniência, as moças concordavam, deixavam o contato e acabavam amando os maridos muito mais velhos. Não só admirando, amando mesmo. Podia ser assim com Mariana. Podia desenvolver aquele sentimento de retorno ao que ele tinha. Faria tudo por ela. Tudo.      Faltavam quinze para as onze, era hora de ir, chegar dez minutos antes como havia sido pedido. Falaria sobre as árvores, sim, o portento, o privilégio da vilegiatura, sobre a história ali no Campo de Santana, devia causar boa impressão a Mariana. Aquela entrevista era para ela. Claro que era uma conquista da sua vida, sua oportunidade, uma medalha pelo mérito do seu esforço, da sua pertinácia, do seu valor, que aliás Mariana reconhecia. Mas o importante era acrescentar um grau a mais naquela entrevista, Tião, o livreiro do Juramento, escutado pelos ouvintes mais cultos da cidade, escutado e admirado por Mariana. Talvez até amado por Mariana. Oh, aquele sentimento.


   Aproveitou o sinal, os carros todos parados e atravessou a rua de passo estugado, não correndo, não podia mais correr, as pernas fraquejavam. Merda de velhice, atrapalhava tudo. Entrou no prédio da Radio MEC. Nunca tinha entrado. A rádio da gente culta. Entrou: aquele sentimento.




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