Saturnino Braga


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ARTIGO: ENERGIA E CRIATIVIDADE
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ARTIGO: NA POLÍTICA: BONS VENTOS PARA OS DUZENTOS ANOS
ARTIGO: JORNADA DE SEIS HORAS
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CONTO: A MULHER MÔNICA
CONTO: DOIS BEIJOS
CONTO: MINDINHA
CONTO: IMELDA
CONTO: A DECISÃO
LIVROS
CONTO: A MULHER MÔNICA

 

        Era a terceira história que eu lia recentemente cujo personagem tinha este nome da santa mãe de Agostinho, venerada na igreja próxima à minha casa. Um nome associado, na minha mente, à idéia de mulher fatal, decorrência de uma história em quadrinhos que eu lia na infância, me lembro até da figura dela, a face má e as mãos finas, com unhas diabólicas. E curiosamente as Mônicas do meu conhecimento, também três, são pessoas boas mas mulheres que escapam bastante ao padrão médio de comportamento feminino que se observa no Rio do meu tempo.

       A primeira foi uma estranha figura com um passado infantil infeliz, que era bonita mas desacertada nas suas ligações, que se juntou a um chileno problemático depois de três casamentos desfeitos, foi residir com ele numa ermida fria no alto da serra, sem comunicação com o mundo, e dela só tive notícia meses depois, quando terminou seu quarto casamento e foi morar sozinha em Petrópolis, vivendo de fazer biscoitos deliciosos. Nosso encontro se deu pelo seu interesse em literatura e pelos comentários agudos sobre meus livros, que me agradaram muito. Era bonita, sim, e inteligente, sabedora das coisas das letras, agradável, mas excêntrica, à sua moda, singular.

        A outra era mulher absolutamente ajustada ao padrão normal das famílias de classe média da cidade: filha cuidada, educada, bem casada, religiosa, com duas meninas estudando no Colégio Notre Dame, que conheci no caminhar diário em volta da Lagoa. Oh, que mulher bonita e graciosa, alta, esbelta, de pele clarinha e olhos bem vivos, que frescor de candura exalava seu corpo bem feminino ao cruzar comigo. Irresistível. Mas Impossível, completamente inacessível ela era. E entretanto nos amamos com paixão em vários quartos de hotel na zona sul; ela rejeitava frontalmente qualquer sugestão de motel. Não era pelo medo de ser flagrada, o risco era o mesmo no hotel; era uma rejeição de princípio, religiosa, inarredável. Que saudade.

       E tem a terceira, a de hoje, passa por aqui nos fins de semana, morena de cabelos lisos como uma índia. Um corpo de justas proporções, cheio de curvas e doçuras de mulher; uma cara que não chega a ser bonita mas é de uma felicidade contagiante, alegre e falante, cantante como os pássaros em folguedo.

        Ela mora em Sacra Família, e só isso já me encanta, me lembra a infância, meus irmãos e meus primos, sempre em festa com as árvores, os cavalos, a água fria do rio. Há mais de dez anos era caseira de um sítio de gente boa e normal, quando morreu o homem repentinamente de um infarto, e o sítio perdeu a graça para a mulher e os filhos. Venderam.

       Comprou-o um holandês rico e destemperado, agrônomo, com mania de plantar árvores exóticas de crescimento rápido para vender madeira. Mônica e o marido continuaram caseiros do novo dono. O marido exigido em dobro no lavor do plantio de mudas, descontente mas aceitando a sobrecarga pelo salário necessário; o holandês pagava até um pouco mais, dava um extra pelo número de covas plantadas.


        Tudo ia bem, razoavelmente, até que o holandês, já encantado com a saúde e a vida que emanavam daquele corpo moreno e feminino, apaixonou-se por Mônica.

 E deu de assediá-la, elogiá-la, procurá-la o dia inteiro, para olhá-la e dizer o quanto a achava bonita. E gostosa, elevou a ousadia, pegava-lhe as mãos e alisava seus braços, dizendo que ela a graça da vida dele. Um dia mostrou-lhe uma foto, de dez homens robustos abraçando uma árvore gigantesca, como se estivessem fazendo amor com a árvore. E perguntou como ela se sentiria com dez homens fazendo amor com ela.

- Ah, não sei não, seu Ernesto; Mônica deixou na pia o prato que estava lavando e saiu atabalhoada e confusa, decidida, naquele momento, a não ficar mais ali. Foi passar o dia na casa da irmã e de noite disse ao marido que o patrão e a patroa tinham sido rudes com ela, e que ela não ficaria mais ali. Como? Aquilo assim de repente, ela nunca havia dito nada sobre os patrões, o que tinha havido?

Para convencer, Mônica não deu detalhes mas inventou que os dois tinham insinuado senvergonhice para ela, falou no abraço de sexo com a  árvore, e tinham sido rudes quando ela repeliu e cortou o papo. Estava decidida, mudava-se para a casa da mãe, que era perto, tinha um quarto vago e eles poderiam dormir lá os dois, ele continuando a trabalhar no sítio se quisesse. Foi.

Dois meses depois, arranjou um emprego de fim de semana no Rio: chegava sexta no fim da tarde e voltava segunda de manhã para Sacra Família; cuidava de uma senhora idosa que morava sozinha perto do nosso apartamento, na Domingos Ferreira. Em um mês desenvolvemos simpatia mútua de cumprimento, de olhar e de sorriso.

Frequentemente, em dias bonitos, eu levava minha mulher à praia de manhã cedo, pouco antes das sete. Sentava-a na beira do mar e deixava que a água benfazeja lhe cobrisse o corpo com as ondas, e o sol lhe fortalecesse os ossos. Sábados e domingos Mônica quase sempre estava lá, com um maiô preto inteiriço e sua alegria radiante. Não conhecia o mar até então, e o encanto lhe entrava pelo corpo; conheceu a beleza do ar salgado e da luz oceânica, e a felicidade daquela água fresca que nutria pelos poros.

Minha mulher tinha fraqueza nas pernas e Mônica ficava ao lado dela ali sentada enquanto eu dava um mergulho prazeroso. Ajudava-nos na hora de Wilma se levantar. Voltávamos para casa e ela ficava mais um pouco, mergulhando no raso sem se aventurar, nunca havia nadado em sua vida. Eu caminhava pela areia devagar com minha mulher, voltando-me para olhar Mônica no mar, feliz em toda a sua radiância. Era um sol fresco.



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