Saturnino Braga


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ARTIGO: NA POLÍTICA: BONS VENTOS PARA OS DUZENTOS ANOS
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CONTO: SABER
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CONTO: SABER


Procópio: o valor do homem está no seu saber e na sua dignidade, lição primeira que aprendera com o Velho e ficara sendo sua diretriz de vida. O sujeito podia ser negro, magro, feio, enfermiço, valetudinário, mas tinha de manter, por dentro, sua dignidade, na postura, no gesto e no falar, no vestir também, andava sempre de terno e gravata. Dignidade não era soberba, notassem, era dignidade, e não caía do céu, não era regalo, vinha do saber, tinha de ser conquistada pelo saber, na lição do Velho.

 

Conhecia de ver na meninice, lá no São Carlos, os caminhos antigos da boa dignidade, a capoeira, o manejo da navalha; conhecia também os caminhos modernos através da bandidagem sem vergonha e bruta, tecnológica, de capuz, que via agora em Vila Rosário onde morava numa casa pequena mas decente, só com a mulher, os filhos pelo mundo mas no decoro. O morar, como o ser, também tinha dignidade. O ser em casa, com a mulher, a rotina silenciosa e respeitosa, dignidade também.

 

Mas havia outra rota, mais segura e verdadeira para a construção da vida digna, aquela dos ensinamentos do Velho que tinha cultivado. Sabia das rezas do bem e do mal, fazia para ele mesmo, a proteção de Congo Monjongo contra azar de dia e de noite, contra polícia e vagabundo, e fazia para outros a pedido; se a pessoa retribuía com alguma coisa por iniciativa própria, um óbolo, aceitava com dignidade; se não, também não tinha nada, era a obrigação do poder dele, responsabilidade.

 

Rezava a oração do poderoso São Jorge, em nome da Santíssima Trindade, dizia salve a banda de Minas, salve a banda de Cordeiro e a banda de Cantagalo, e assim tirava a dor de qualquer parte do corpo da pessoa, como qualquer outro mal, de lagartixa e de lagartixeiro e a dor da parte da alma também, tirava do corpo da pessoa qualquer ar de coisa má, o ar de cova. E também sabia machucar, quando necessário na exigência da dignidade, convocava sete almas furadas, sete almas queimadas, sete almas afogadas, e o inimigo não tinha sossego, e podia até perder toda a saúde, conforme a palavra certa e sabida, dita por ele.

 

Tinha saber, conhecia mais de sessenta ervas e fazia com elas todo tipo de remédio, poções e emulsões, fazia xaropes, concentrava as essências poderosas cozinhando ao sol do meio-dia num vasilhame próprio, e produzia resultados certos e espantosos, de energização de pessoa combalida, misturando, por exemplo, ovo de lagarto no concentrado, tiro certo para conseguir energização no ato de amor, ou dinamização do sangue para enfrentar lutas extremas. Fazia mais, coisas que curavam todo tipo de mal, da vista ou da audição, do fígado e do coração, males da locomoção também, fazia banhos que preparava à base de alecrim e amor-do-campo, era um saber, o sustento da sua dignidade.

 

Procópio foi chamado e atendeu a um rapaz na Gávea debilitado por um tratamento químico. Foi lá, constatou a simpatia e afeiçoou-se de primeira, fez a reza comprida e toda semana ia levar uma garrafa do tônico. Toda semana via Isaura de cabelos alisados cor de caramelo, uma boca de flor orquídea e um corpo de belas curvas femininas. E a cada semana sentia o desdém daquela fada caramelada que lhe espetava o coração. E machucava mais que a incredulidade leviana da patroa, a mãe do doente, gente de outra porção do mundo que não cria em africanos, tinha seus santos próprios. Só o Alex, o rapaz, acreditava, e melhorava a cada semana, e perguntava por ele. Tanto que a mãe findou por mostrar atenção, pediu licença e lhe deu uma soma.

 

Isaura, não. Nada. Semanas, nada. Foi dando então aquela flama e pensava nela todo dia. Foi levar o tônico e daquela vez pediu para ir ao banheiro sem intenção, até meio envergonhado, porque precisava mesmo se aliviar, e no banheiro viu dependurada na torneira do chuveiro a calcinha de Isaura, só podia ser dela. Surrupiou decidido ali na hora, pôs no bolso. Em casa fez a reza forte naquela peça limpinha e vermelha, com rendinhas.

 

E já na semana seguinte o resultado, notou os olhos risonhos, duas ameixas diferentes. Então decidiu e declarou: Isaura escutou. Escutou, oh! Despediu-se, beijou-lhe a mão de mulher e ela sorriu.

 

Na volta, o coração cantava e o ônibus ia veloz, o vento entrava fresco pela janela e alisava o rosto alegre. Foi desviar de um motoqueiro atrevido e derrapou na rua Jardim Botânico; bateu forte no poste e Procópio teve um traumatismo no joelho, trincou a rótula e ficou sem poder andar mais de duas semanas.

 

Recomeçou devagar, de muletas, sem dignidade nenhuma, e por isso mesmo não foi levar o tônico, não podia Isaura vê-lo assim; pediu a Carlinhos, o sobrinho, que levasse.

 

Amuado, acachapado, fez então a reza devagar pra ele mesmo, fez o voto e a pergunta. E teve a resposta que já estava bem no fundo da cabeça, na lembrança do Velho: o mau uso do saber tinha castigo. Merecido, sim: saber tem responsabilidade.

 




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